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4º Ciclo de Saberes Maré Cheia promove articulação em defesa dos territórios e maretórios

  • 17-09-2026
Nalberth Nascimento

Entre os dias 10 e 12 de setembro, o Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (PEAC), por meio do projeto Compartilhar, realizou o 4º Ciclo de Saberes Maré Cheia, em Aracaju. Com o tema “Defesa Popular das Águas em Territórios e Maretórios”, o encontro reuniu movimentos sociais, órgãos públicos, pesquisadores e lideranças comunitárias para dialogar sobre os desafios enfrentados nos territórios e fortalecer estratégias coletivas de defesa dos direitos dos povos das águas. 

Para o Prof. Dr. Eraldo Ramos Filho, coordenador geral do PEAC, o Maré Cheia constitui um espaço de formação e construção coletiva de conhecimentos entre comunidades, pesquisadores e instituições.

“O Ciclo de Saberes Maré Cheia é um espaço formativo sobre a organização comunitária e as políticas de ordenamento territorial e planejamento ambiental que se encontram com as comunidades da área de abrangência do programa”, afirma.

Abertura e troca de experiências

As atividades tiveram início no dia 10 de setembro com a roda de conversa “Experiências de luta dos territórios e marétórios latino-americanos”, com a participação de Josineide Cruz, Wellington Quilombola e Erika Leite, do Fórum de Povos e Comunidades Tradicionais de Sergipe (FPCT/SE); Elienaide Flores do Movimento de Pescadoras e Pescadores do Brasil (MPP);  Valéria Lourdes Acosta, dirigente camponesa da comunidade de San Andrés, Bolívia, e a professora da Universidad Nacional da Colômbia, Ana Isabel Perez Marquez.   


Roda de conversa com o tema “Experiências de luta dos territórios e marétórios latino-americanos”. Da esquerda à direita: Elienaide Flores, Ana Isabel Perez, Josineide Cruz, Valéria Lourdes, Eraldo Ramos Filho, Welligton Quilombola. | Foto: Nalberth Nascimento

A proposta de promover o intercâmbio entre diferentes experiências busca ampliar o diálogo para além das vivências locais, aproximando comunidades e pesquisadores de processos de organização e resistência em diferentes territórios da América Latina. É o que nos explica o professor Eraldo Ramos. “Nosso processo educativo busca ter essa articulação entre escalas. Estudamos e trocamos conhecimentos sobre as realidades da zona costeira de Sergipe, sobre processos que acontecem no Brasil, mas também sobre processos internacionais”.

A presença de diferentes sujeitos e instituições públicas no Ciclo de Saberes também contribuiu para aproximar os territórios das políticas públicas que incidem sobre essas áreas.

O coordenador da Superintendência do Patrimônio da União em Sergipe (SPU), Nielson Tôrres, destacou a importância de as instituições conhecerem as comunidades e os territórios. “É importante para a SPU conhecer não só as demandas das comunidades, mas também o território que essas comunidades utilizam e quem são essas pessoas, porque são elas que fazem o território tradicional existir”, explica.

Para a presidenta da Associação de Moradores do povoado Ouricuri, em Estância, Josineide Cruz, a participação no Maré Cheia também contribui para dar visibilidade às comunidades tradicionais e às dificuldades enfrentadas em seus territórios. “Esse encontro coloca as comunidades e os problemas que elas enfrentam no centro do debate. "O que queremos é mostrar ao Estado as dificuldades que enfrentamos enquanto povos e comunidades tradicionais em nossos territórios", explica Josineide, que também é liderança do Fórum de Povos e Comunidades Tradicionais de Sergipe (FPCT-SE).

Vivências nos territórios e maretórios

Já no dia 11 de setembro, a programação incluiu o Giro nos Territórios e Maretórios, com uma atividade de campo realizada nas comunidades do Robalo, Areia Branca e Mosqueiro, localizadas na Zona de Expansão de Aracaju, às margens do Rio Vaza-Barris.

A visita, conduzida por marisqueiras da região, possibilitou conhecer os espaços de trabalho das comunidades e as aceleradas transformações da região que vêm afetando o acesso ao rio e à pesca artesanal. Durante a atividade, foram compartilhados relatos sobre os impactos associados à construção de canais de macrodrenagem, além das dificuldades de acesso a antigos portos e locais de pesca.


Lideranças e pesquisadores participam do Giro nos Territórios e Maretórios nas comunidade de Robalo, Areia Branca e Mosqueiro. | Foto: Nalberth Nascimento

Somados a isso, as comunidades também estão convivendo com a disputa territorial entre os municípios de Aracaju e São Cristóvão, o que traz incertezas acerca do acesso a serviços básicos e políticas públicas.

Para o presidente da Associação Quilombola Pontal da Barra, em Barra dos Coqueiros, Robério Manoel, as comunidades precisam ser reconhecidas e consultadas. “As comunidades precisam ser respeitadas e consultadas sobre qualquer construção que aconteça no território. Seja em Aracaju, na Barra ou em qualquer lugar de Sergipe. Nós não somos invisíveis”, explica.

Para o professor Eraldo Ramos Filho, levar a formação para os territórios é parte fundamental da metodologia adotada pelo Programa. “O território também nos ensina. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Então, ir até o território, conhecer as realidades, as pessoas, observar a paisagem, sentir os cheiros, ouvir o canto dos pássaros, ou o silêncio de quando eles foram eliminados, é fundamental.”

Articulação e construção coletiva

As discussões realizadas durante o ciclo também reforçaram a necessidade de aproximar comunidades e instituições responsáveis pela execução de políticas públicas. Para Wellington Quilombola, do Quilombo Porto D’Areia, em Estância, essa aproximação permite que os órgãos públicos conheçam diretamente as realidades vivenciadas nos territórios.

“Trazer as instituições que são executoras das políticas públicas para conhecer a realidade, ir diretamente às comunidades tradicionais e possibilitar um diálogo direto com as lideranças que vivem nelas é uma oportunidade fundamental. Foi através dessas discussões, como o Maré Cheia, que conseguimos mostrar aos demais movimentos a necessidade de estarmos unidos e cobrando do Estado”, afirma.

A participação da SPU também possibilitou discutir instrumentos voltados à proteção e regularização dos territórios tradicionais. Nielson Tôrres destacou o Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS) como uma ferramenta que pode contribuir para o reconhecimento dos usos tradicionais. “O TAUS é um instrumento que não só vai empoderar a comunidade, mas também proteger esses locais, dando um interesse público para as atividades tradicionais”, explica.


Lideranças e pesquisadores discutem estratégias coletivas de defesa dos direitos dos povos das águas . | Foto: Nalberth Nascimento

Os Ciclos Maré Cheia, idealizados pelo projeto Compartilhar em parceria com o Fórum de Povos e Comunidades Tradicionais de Sergipe (FPCT/SE), são espaços de formação continuada com o objetivo de fortalecer a organização das comunidades tradicionais. Para Cristiane Dias, liderança do Fórum e do Movimento de Marisqueiras de Sergipe (MMS), o 4º Ciclo Maré Cheia possibilitou a compreensão sobre os direitos sociais e os instrumentos legais para a defesa dos territórios. “O encontro trouxe a oportunidade de o pescador e a marisqueira conhecerem melhor o que está acontecendo em seu território e de que maneira podem buscar os meios legais para defendê-lo. Esse quarto ciclo trouxe uma vivência de muita emoção, por ver um território a cada dia que passa destruído, mas também trouxe a esperança de que a gente possa se organizar e ajudar esses territórios”.

A realização do PEAC é uma medida de mitigação exigida pelo licenciamento ambiental federal, conduzido pelo IBAMA.

 

Programa Peac

O Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (PEAC) incentiva o fortalecimento dos Territórios de vida dos Povos e Comunidades Tradicionais. A realização do PEAC é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama.