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Evy Oliver e Flávio Henrique
Após um ano de atividades em campo, a equipe do Núcleo de Educomunicação do PEAC avança na pesquisa de pós-doutorado que vem mapeando referências culturais nos Territórios de Vida da área de abrangência do Programa. Inspirada na metodologia do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) criada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a pesquisa percorrerá comunidades tradicionais de 12 municípios da região costeira de Sergipe e na região norte da Bahia.
Iniciado em abril de 2025, até o momento, o estudo percorreu o território sul sergipano com visitas aos municípios de Indiaroba, Santa Luzia do Itanhy e Estância. Ao todo, mais de 20 comunidades foram visitadas pela equipe, em atividades que envolveram mobilizações locais, rodas de conversa, oficinas e registros audiovisuais de expressões culturais e ofícios tradicionais ainda ativos.
A proposta da pesquisa é identificar e registrar práticas culturais ancestrais com foco em quatro categorias: saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão e; lugares e edificações. Essa metodologia permite a catalogação dessas referências e estimula a construção de sentidos de identidade e pertencimento nas comunidades a partir da documentação de ofícios ligados à pesca, à mariscagem e às tradições que compõem a história e memória dessas populações. Além do registro, o estudo também investiga se as Mestras/es e grupos culturais têm conseguido acessar recursos provenientes de editais de fomento à cultura oferecidos por secretarias municipais, estaduais e o Governo Federal.



Culturas tradicionais e políticas públicas
Embora povos e comunidades tradicionais sejam reconhecidos como público prioritário nas políticas culturais, o acesso aos recursos ainda é comprometido por questões ligadas, principalmente, à burocracia dos processos seletivos e por ineficiência de estados e municípios na efetivação das ações previstas pelo Sistema Nacional de Cultura (SNC). Em alguns casos, os conselhos de cultura e outras instâncias participativas não conseguem alcançar e manter articulados os agentes, mestras/es e demais artistas populares em torno das políticas públicas do setor.
O principal instrumento federal voltado à valorização da cultura de base comunitária é a Política Nacional Cultura Viva. Criada em 2004, a iniciativa já certificou mais de 16 mil Pontos e Pontões de Cultura em toda a Rede, reconhecendo organizações e coletivos culturais que atuam diretamente nos territórios. Apesar do número expressivo, ainda há muitos desafios em relação à participação igualitária. Nos três municípios do sul sergipano visitados nesta primeira etapa da pesquisa existem, atualmente, apenas três Pontos e um Pontão de Cultura reconhecidos, número que revela desigualdades entre a riqueza de expressões culturais existentes e o acesso efetivo às políticas de fomento.
“O Mapeamento traz a visibilidade de muitos elementos das culturas tradicionais e populares que estão presentes nas comunidades mas muitas vezes não são reconhecidas, interna ou externamente. A pesquisa reafirma a existência dessas referências culturais quando ela nomina, registra e divulga para a sociedade, então essa movimentação dentro das comunidades torna esses elementos visíveis”, afirma Mariana Galvão, pesquisadora do pós-doutorado que conduz a ação. Além dos registros, o Mapeamento dialoga com temas da gestão cultural e a participação em políticas públicas. Segundo a pesquisadora, “a gente pretende desdobrar uma etapa de construção de portfólios dos grupos, a inscrição de Mestras/es de ofício e dos grupos no mapa do Cultura Viva e temos buscado uma articulação com as secretarias municipais de cultura com o objetivo de verificar se os conselhos estão ativos mas o cenário é bastante complexo nesse sentido”, revela.
Um forte dado da pesquisa é a presença de populações quilombolas em todos os três municípios visitados até o momento, destacando-se o Quilombo Desterro, às margens do Rio Real, no povoado Cajueirinho, em Indiaroba; o Território Quilombola Luzienses, que concentra sete comunidades reconhecidas; e, em Estância, o quilombo urbano Porto d’Areia que representa um importante polo da cultura estanciana e sergipana, sobretudo em torno da música e do ofício dos fogueteiros/as.
Dados do Censo 2022 indicam que o Brasil possui cerca de 1,3 milhão de pessoas quilombolas distribuídas em 1.696 municípios e Sergipe é o 9º do país em número de pessoas autodeclaradas, somando mais de 28 mil habitantes. “Na região sul a gente visitou os 3 municípios da região e em todos têm forte presença quilombola, sendo que um deles é o maior território quilombola de Sergipe tanto em extensão geográfica quanto em população autodeclarada. Esse é um aspecto que não dá para desconsiderar”, declara Mariana. Na região encontram-se o Quilombo Desterro, às margens do Rio Real, no povoado Cajueirinho, em Indiaroba; o Território Quilombola Luziense, que concentra sete comunidades reconhecidas; e, em Estância, o quilombo urbano Porto d’Areia que representa um importante polo da cultura estanciana e sergipana, sobretudo em torno da música e do ofício dos fogueteiros/as.
A pesquisadora defende que as políticas culturais são ações afirmativas de caráter reparatório e destaca que “os quilombos já são público prioritário nas políticas do Governo Federal, ou seja, essas populações que não estão acessando editais deveriam estar acessando de forma prioritária. Então buscamos informar os grupos sobre esse cenário e também articular outras políticas de patrimônio, salvaguarda e memória, do reconhecimento do patrimônio cultural e material e com isso ir elaborando outras possibilidades de colocar essas populações em destaque. Acredito que essa pesquisa pode contribuir com isso”, revela.






Continuidade, produtos e desdobramentos
As andanças pela região sul de Sergipe continuam em comunidades do município de Estância onde ainda serão realizadas oficinas e novos registros audiovisuais. Diante da efervescência de algum festejo tradicional em comunidades de outra região, a equipe busca registrar as celebrações sazonais em paralelo, a exemplo do Encontro Cultural de Abadia, comunidade localizada em Jandaíra, município da região Norte da Bahia. O evento aconteceu em dezembro de 2025 e foi uma verdadeira celebração da diversidade e da força das tradições populares de comunidades vizinhas, formando uma rede de parcerias em torno da arte e da cultura popular. Serão registrados também alguns festejos juninos na região centro de Sergipe.
Após a realização desta primeira etapa de levantamento, serão realizados Encontros de Culturas Ancestrais que reunirão as referências culturais mapeadas para trocas de saberes e celebração da vida. O evento contará com o apoio da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e prevê o laureamento de Mestras e Mestres de Saberes, Ofícios, Artes e Culturas Populares, além de promover intercâmbios entre comunidades tradicionais e o ambiente acadêmico. “A Universidade enquanto lugar legítimo para a pesquisa, ensino e extensão assegura o reconhecimento das culturas e dos ofícios dos povos tradicionais. Atribui a eles um grau de Mestre e Mestra da Cultura Popular e possibilita que os saberes inerentes sejam socializados através dessa Instituição, validando esses saberes na sociedade”, revela o Prof. Dr. Florisvaldo Rocha, coordenador acadêmico do Núcleo de Educomunicação do PEAC.
“O Encontro de Cultura Ancestral vem para preencher uma lacuna de visibilização das culturas dos povos e comunidades tradicionais nos municípios onde atua o PEAC, então a pesquisa cumpre a função de catalogar essas tradições dentro das comunidades e lançar luz nessa seara cultural invisibilizada”, afirma o coordenador.



Entre os produtos previstos estão o lançamento de um documentário que narra os diversos processos da pesquisa, traz cenas das atividades de campo e bastidores da relação com as comunidades; Além disso, propõe-se a publicação de um catálogo impressa com a reunião de todas as referências culturais mapeadas, exposições artísticas com fotografias e outros materiais artísticos decorrentes das oficinas realizadas no âmbito dos Circuitos de Cultura Ancestral. Ao fim do processo, o Mapeamento Cultural do PEAC busca reconhecer o legado das comunidades tradicionais como guardiãs de saberes que atravessam gerações.
A realização do PEAC é uma medida de mitigação exigida pelo licenciamento ambiental federal conduzido pelo IBAMA.
O Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (PEAC) incentiva o fortalecimento dos Territórios de vida dos Povos e Comunidades Tradicionais. A realização do PEAC é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama.