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Ciranda Infantil: Uma celebração das infâncias dos povos e comunidades tradicionais

  • 03-04-2025
Esdras Amaro

Na Chácara João XXIII, onde aconteceu o XIII EPEAC em janeiro deste ano, havia um ambiente muito diferente dos espaços onde aconteciam as mesas, plenárias e demais atividades do evento. Um portal composto por uma grande faixa colorida com fitas trazia o nome: “Ciranda Infantil do PEAC”. Ao passar por ele, as árvores dançavam com o vento e já era possível ouvir, ao longe, uma canção acompanhada pelo som do ukulele cuja letra demonstrava preocupação com o meio ambiente. Algumas crianças, sentadas em círculo, ouviam atentamente a canção e balbuciavam alguns versos. Assim, por entre árvores e o espaço da Ciranda, as vozes das crianças do rio, do mangue e do mar ecoavam. 

Ao lado do círculo musical, outras crianças brincavam com terra e água, utilizando velhos utensílios de cozinha e dando a eles novas funções. Cabaças e cumbucas de coco também eram utilizadas na brincadeira chamada por elas de “Restaurante das Crianças”. “Tia, você quer sorvete de chocolate, pipoca ou mariscada?”, perguntavam as atendentes, com recipientes recheados de terra molhada em suas mãos.


Crianças brincam com terra com a bandeira do MMS ao fundo. | Foto Evy Oliver

Na pausa para o lanche oferecido pela Ciranda Infantil, as frutas e alimentos orgânicos consumidos pelas crianças eram descartados em uma composteira, produzida ali mesmo, como parte das atividades da Ciranda. Após o lanche, o espaço para repouso também era garantido. Entre as sombras das árvores, redes coloridas se estendiam e eram usadas para o descanso de mães com bebês, para a soneca após o lanche e para uma pausa rápida das crianças. Além disso, também havia o cantinho da leitura com uma estante repleta de livros que traziam as mais diversas narrativas para as crianças. Assim aconteceu a Ciranda Infantil do XIII EPEAC que acolheu mais de 40 crianças de povos e comunidades tradicionais durante 4 dias de programação.

Entre brinquedos agroecológicos espalhados na grama, cheiro de terra molhada e embalada ao som de instrumentos diversos e cantigas ancestrais, as crianças realizaram atividades culturais e de formação; rodas de acolhimento, oficinas artísticas, jogos pedagógicos e leituras mediadas.


Crianças brinca com a terra | Foto Evy Oliver

Para Flávia Pereira, marisqueira do povoado Terra Caída, em Indiaroba, a experiência da primeira Ciranda Infantil realizada no Encontro do PEAC reflete a conquista da luta das mulheres, além de garantir a participação das crianças junto às suas mães. “A luta foi grande para a gente conquistar esse espaço da Ciranda. Antes a gente não podia trazer as crianças para as atividades e estar aqui com elas hoje é uma experiência muito boa. Estou gostando do trabalho que a Ciranda está realizando com nossas crianças e elas estão gostando bastante”, explica Flávia, que é mãe de três filhos. Nicolas Pereira, um dos filhos de Flávia, compartilhou um pouco de sua experiência. “Está sendo muito legal, ontem eu brinquei de pintar e hoje eu brinquei de escorregar com sabão”, explica com entusiasmo.

Histórico de lutas da Ciranda Infantil do PEAC 

Embora a Ciranda no EPEAC deste ano tenha sido a maior experiência infanto-juvenil já realizada no Programa, ela não é um acontecimento isolado. Sua existência é resultado de um forte histórico de luta pela participação das crianças e jovens nos espaços formativos de Educação Ambiental Crítica. A primeira experiência da Ciranda no PEAC aconteceu na 15ª Reunião do Conselho Gestor em março de 2023 na comunidade do Barrosinho, em Aracaju. 

Na época, foi a pesquisadora das infâncias Mony Grazielly quem impulsionou junto aos conselheiros essa primeira experiência, resultando na pesquisa de mestrado intitulada “Espaço de Ciranda Infantil: Uma proposta para o Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras”. 


Ciranda no Barrosinho, 2023. | Foto: Evy Oliver

Em 2023, o Movimento das Marisqueiras de Sergipe (MMS) elaborarou uma carta reivindicando a necessidade de espaços para as crianças e jovens dentro das atividades do Programa. O manifesto, apresentado durante a abertura do XXII Encontro do PEAC, abordava os problemas enfrentados por essas mulheres - em sua maioria mães - para participar das ações do PEAC em detrimento da ausência de seus filhos e da impossibilidade de não ter com quem deixar suas crianças durante as atividades.

Construir ambientes para mães é, essencialmente, pensar nos filhos que as acompanham e inseri-los na constituição desses lugares, conforme explica a mãe, marisqueira e catadora de mangaba Crislaine dos Santos, moradora do povoado Pontal, em Indiaroba. “No nosso pensamento de mãe, a gente não interage totalmente nos espaços, não se entrega totalmente à atividade porque pensamos nas crianças que deixamos em casa… Mãe nunca dorme bem, a gente dorme duas horinhas e o restante do tempo estamos observando se a criança está bem, se está faltando alguma coisa. É algo que só quem é mãe sabe”.

Além da carta de reivindicação, como um gesto de protesto, o Movimento das Marisqueiras financiou a ida e participação de Crislaine e seu filho no Encontro em 2023, tendo em vista a impossibilidade do translado de crianças naquele momento. Sobre este episódio, Crislaine nos conta: “Logo no começo, quando eu fiquei grávida, os meus outros filhos ficavam em casa. Eu ainda frequentei algumas reuniões grávida, mas depois eu me afastei. Em 2023, o movimento pagou a minha passagem para eu ir para o EPEAC. O movimento fez uma carta reivindicando a ciranda e aí foi quando aconteceu. É gratificante saber que eu lutei por uma coisa que me favorece, porque eu tenho filhos e eu preciso estar nos espaços. Isso é pelas outras mulheres também, porque elas vêm à luta. Tem muitas mulheres que precisam conhecer esse espaço para se libertarem do que vivem, para ter um diálogo a mais, conhecimento a mais. A ciranda chegou na hora certa”, esclarece.


Cirandeiras e crianças enfileiradas no espaço da Ciranda | Foto: Esdras Amaro

A formação de Cirandeiras e Cirandeiros 

Em outubro de 2024, a Associação Ciranda Criativa foi contratada para realizar a Ciranda Infantil no Encontro das Marisqueiras de Sergipe, o EMARIS, junto com as equipes de pesquisadoras do PEAC. Para Mony Grazielly, membra da Ciranda Criativa, o processo formativo e multiplicador fortalece ainda mais os espaços voltado às infâncias. “O mais importante é aprender a fazer e a formação de cirandeiras e cirandeiros é fundamental para que mais pessoas possam se sentir motivadas e com capacidade para alimentar o espaço da Ciranda Infantil em seus territórios”, explica. 

Pensando nisso, foi criado em dezembro de 2024 um Grupo de Trabalho (GT) Das Infâncias com o objetivo de formular propostas metodológicas para a realização da ciranda nos grandes eventos e para a formação de cirandeiras e cirandeiros, como explica o Observatório Popular das Violências, pela Vida das Mulheres e Comunidades Tradicionais de Sergipe (Observatório das Mulheres). “A primeira ciranda dos grandes eventos foi articulada pelo GT das Infâncias do PEAC que conta com representantes do Movimento das Marisqueiras, conselheiras(os) do Conselho Gestor, equipe técnica do Observatório das Mulheres, Educom, Conselho Gestor e Compartilhar. Já a cirandinha nos territórios é um projeto do Observatório das Mulheres que tem por objetivo dar amplitude à participação das crianças no debate de educação ambiental numa perspectiva político-pedagógica que entende o brincar como instrumento político e fortalecimento das infâncias desde o território”.


Cirandeira e crianças no Fórum de Base realizado no povoado Lauro Rocha, em São Cristóvão | Foto: Pedro Bomba

Uma das experiências com as Cirandinhas aconteceu nos fóruns de base, encontros preparatórios para o EPEAC realizados nas comunidades. Enquanto os adultos participavam da atividade, as crianças brincavam nas cirandinhas. “Essas crianças que participaram da cirandinha foram crianças das comunidades e elas co-criaram a ciranda conosco, elas e as cirandeiras que estavam em formação. Nós construímos mapas das cirandas e, ao final do dia, as crianças desenharam, colocaram no papel o que precisavam ter em um espaço de Ciranda Infantil. Foi uma atividade que acolheu as infâncias”, comenta Mony.

Como surgiram as Cirandas Infantis no Brasil? 

Entre partilhas e movimentações do I Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária - ENERA - do Setor de Educação do Movimento Sem Terra (MST), em 1997, nasceu a primeira Ciranda Infantil em território nacional como uma proposta de garantir um espaço seguro para as crianças enquanto seus pais estão nas formações do movimento, assegurando a participação, especialmente, das mães, bem como a elaboração e realização de uma educação crítica com as crianças. “Dentro dos movimentos, a ciranda nasce como uma maneira de as mulheres poderem fazer parte da luta, porque as mulheres sempre são as cuidadoras das crianças, nas famílias são sempre elas que cuidam. E esse espaço de luta sempre foi majoritariamente masculino, então as cirandas acolhem as infâncias para que as mulheres possam estar presentes”, explica Mony. 

Além de garantir uma participação efetiva dos pais nas atividades dos movimentos e um espaço seguro e saudável para a vivência infantil, a existência das cirandas é a materialização de um olhar político e humanizado para com as crianças, reconhecendo-as enquanto sujeitos de direito e, portanto, construtoras de seu próprio saber e formação. Segundo o Observatório das Mulheres, “a Ciranda se configura como um espaço frutífero de discussão política sobre as temáticas da educação ambiental a partir do olhar das crianças e da juventude que também partilham as vivências nos territórios tradicionais”.


Mães e filhos na ciranda durante a apresentação de circo. | Foto: Esdras Amaro

Para Crislaine, ver seus filhos engajados com outras crianças traz esperança e possibilita que os pequenos compreendam a luta em defesa dos territórios. “É bom ter eles nesses espaços porque eles estão aprendendo, aprendendo com as outras crianças, vendo como ocorre a luta, vendo os ‘porquês’. ‘Por que mamãe viaja tanto?’, ‘O que é o Ibama?’. Eles têm essas perguntas porque eles veem a gente falando e eles querem saber os motivos. Agora eles estão sabendo, eles estão interagindo com a gente, estão vendo as outras crianças e entendendo que não são só eles que passam por esses conflitos, é muito interessante. É o diálogo e é a troca, e isso é bom porque eles vão sair com a mente mais informada”, explica.

Os próximos passos da Ciranda Infantil 

A comunidade de Ouricuri em Estância é uma das comunidades que vem exercitando a realização da cirandinha em seu território. Josineide dos Santos, marisqueira e presidente da associação do povoado, vê a experiência com otimismo. “As crianças aqui são acostumadas a não ter quase nada, uma escola, um campo de terra para elas correrem no sol, na chuva. O lazer dessas crianças no campo é muito pouco porque as mães não têm confiança de deixar os filhos, e com a ciranda isso não acontece. Essa ciranda chegou aqui na minha comunidade como uma bênção. As mães querem que tenha toda semana. Se sentem seguras em deixar seus filhos nas mãos das cirandeiras, que são pessoas maravilhosas, que têm muita paciência com as crianças e que deixam elas à vontade dentro da associação. E isso só nos fortalece enquanto comunidade, enquanto associação, enquanto povo de comunidade tradicional, enquanto mãe marisqueira, saber que tem pessoas que confiam e acreditam que o futuro das nossas crianças pode ser bem melhor”, explica Josineide, que também é conselheira do Conselho Gestor do Programa. 

Pensar a Ciranda é entender a existência coletiva, os caminhos por onde andam os povos e comunidades tradicionais. É o que nos conta Iracema dos Santos, marisqueira, cirandeira e moradora do povoado Pontal, em Indiaroba. “Eu tive uma infância muito boa. Eu morei na mata, cresci na mata. Eu me senti realizada ao contar a minha história para as crianças e os jovens. Fiquei muito emocionada por contar um pouco da minha história e do nosso território”, explica. Com um vasto conhecimento em culinária, brincadeiras populares e mariscagem, Ceminha, como é conhecida, foi uma das cirandeiras formadas nas cirandinhas dos territórios e esteve na linha de frente na realização da Ciranda Infantil deste ano. Questionada sobre o futuro das Cirandas nas atividades do PEAC, Iracema aponta o desejo de multiplicar as ações da ciranda em outros lugares. “Precisamos realizar as cirandas nas comunidades, nas escolas e em outros lugares para que mais jovens aprendam sobre os saberes da comunidade, as tradições, a realidade do trabalho, a culinária”. 


Dona Iracema falando sobre brincadeiras de sua infância. | Foto: Evy Oliver

Para Neide, a Cirandinha nos territórios é um espaço educativo que garante a transmissão dos saberes tradicionais e fortalece a identidade das crianças e jovens, muitas vezes desconectados da tradição. “Seria muito boa a ampliação dessas cirandas em mais comunidades com mais profissionais e recursos para que a gente possa fazer formações de cirandeiras em nossas comunidades. Para trabalhar essas crianças na defesa do meio ambiente, contra as violências domésticas, violências do campo, contra a intolerância religiosa. Tem muita criança e adolescente que têm que se reconhecer como povo tradicional. Então precisamos ter mais formações, mais cirandeiras, mais recursos para tocar essas cirandas em todas as comunidades”, comenta.

“E lembrar que criança é nosso reino, nosso tudo, nosso amor". Nas palavras carinhosas de Dona Iracema, reconhecemos o verdadeiro propósito da Ciranda Infantil. Lutar pela construção e permanência desses espaços é fortalecer a luta em defesa dos povos e comunidades tradicionais, protegendo as infâncias, resgatando suas tecnologias ancestrais, fomentando os olhares e celebrando suas vivências, onde o momento presente é resultado de muita luta e movimento coletivo. 

Edição: Pedro Bomba

 

 

Programa Peac

O Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (PEAC) incentiva o fortalecimento dos Territórios de vida dos Povos e Comunidades Tradicionais. A realização do PEAC é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama.