10/12/2019 Por Iargo Souza e Jhennifer Laruska

"Meu cantar vibra as forças que sustentam meu viver. Meu cantar é um apelo que eu faço a Nanã ê. Sou de Nanã ê uá ê uá ê uá ê.” Foi assim, evocando a força da lama, através do canto das mulheres do coletivo Erukerê, que se iniciaram as atividades de acolhimento para instalação do Observatório Popular de Violências, pela Vida de Mulheres de Povos e Comunidades Tradicionais de Sergipe.

Entre os dias 25, 26 e 27 de novembro foram construídos campos temáticos de observação em composição com o Movimento das Marisqueiras de Sergipe, o Movimento das Catadoras de Mangaba de Sergipe, o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste, o Movimento de Mulheres Camponesas, a Articulação Popular São Francisco Vivo, a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado de Sergipe, o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra,  a União Brasileira de Mulheres, o Coletivo de Mulheres do Erukerê, a Marcha Mundial de Mulheres e o Fórum de Mulheres de Sergipe somados à presença de professoras e estudantes da Universidade Federal de Sergipe (UFS); que tiveram como pauta o enfrentamento às diversas formas de violência contra as mulheres.

A implantação do Observatório é parte dos objetivos do Projeto de Organização e Fortalecimento Sociopolítico das Marisqueiras no Litoral de Sergipe, parte do Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (PEAC).  

EXPERIÊNCIAS, INSPIRAÇÕES E NASCIMENTOS

De acordo com Sirley Ferreira, integrante da equipe técnica do PEAC, o Observatório foi inspirado através do intercâmbio ocorrido no ano de 2018 na região da Auracania/Chile. A experiência contou com a participação de Marisqueiras e Catadoras de Mangaba de Sergipe, mulheres Mapuche e equipe PEAC que, articuladas com a Universidade, propuseram ações para “evidenciar as inúmeras violências sofridas nos territórios de vida e em seus corpos”.

“Para mim, a criação do Observatório foi um marco importante, principalmente em um cenário onde se presencia o aumento do conservadorismo evidenciado no discurso de ódio e discriminação com as mulheres, população negra e LGBTQI. É muito preocupante o aumento dos registros de  violência contra a mulher, principalmente os casos de feminicídios”, ressalta.

Para Ferreira, o projeto contribui para repensar e reorganizar ações conjuntas de enfrentamento e superação, evidenciando através das pesquisas as distintas formas que a violência se manifesta na vida das mulheres, e continua: “a minha expectativa é que a gente consiga se apropriar desse instrumento [observatório] e que ele possibilite uma troca de saberes diversos que permeiam a história de cada mulher, que o nosso pensar em fazer pesquisa não seja afastado da realidade social”, conclui.  

MULHERES QUE HABITAM, EXISTEM E RESISTEM  

Foto: Jhonatas Macario

De frente para o Rio Sergipe, no Centro de Cultura e Arte (Cultarte) da Universidade Federal, reuniram-se mulheres representantes de Povos e Comunidades Tradicionais de várias comunidades de Sergipe, movimentos sociais, estudantes e professoras, mulheres e homens. Maria Juliene, marisqueira da Cidade Nova em Estância, representando o Movimento das Marisqueiras de Sergipe, conduziu o acolhimento e lembrou da importância daquele dia, 25 de novembro, Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher. O acolhimento contou com as saudações de Graziella Linhares, técnica ambiental, representando a Petrobrás, Cecília Barbosa, representando o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

O encontro contou ainda com a participação de três mulheres representantes do povo Mapuche. Além de compartilhar sua experiência de luta em defesa de seus territórios e as concepções do feminismo Mapuche, a presença dessas mulheres aproxima o Observatório de Sergipe com o Observatório de Equidade em Saúde Segundo Gênero e Povo Mapuche, da Universidade de La Frontera, no Chile, no qual o Observatório local se inspira.

“Estou muito feliz e emocionada com a quantidade de povos ancestrais que estou conhecendo aqui. Espero que o Observatório que se forma aqui possa dar bons frutos, apesar das dificuldades, já que nem sempre é fácil. Estamos à disposição para ajudar no que for preciso. A violência nos atravessa a toda hora, não só em nosso corpo, mas também em nossos territórios. E sem nossos territórios não somos nada”, disse Ximena Mercado Catriñir, representante Mapuche. “Trago para vocês a força das manifestações que ocorrem no Chile. É uma luta dura, mas vale a pena lutar. Não é possível viver em um mundo que nos impõe as coisas. É preciso criar um mundo onde caibam muitos mundos”, finalizou.

O acolhimento foi encerrado com o espetáculo “Vaca Profana”, do Grupo de Dança e Performance (GDP) da UFS, sob coordenação de Carol Frinhaní.  

UNIÃO E ENFRENTAMENTO

Professoras e estudantes da UFS também estiveram presentes. Sandra Oliveira, discente do Departamento de Psicologia, e coordenadora do projeto de extensão do Observatório, explicou que a “ideia é criar uma aliança entre os movimentos sociais e a Universidade, porque entendemos que a Universidade precisa estar nesses lugares [onde as pessoas estão]. A Universidade precisa ter esse compromisso com os movimentos e organizações, compromisso com as mulheres de Povos e Comunidades Tradicionais”. "Pois a vida de cada uma importa e a luta persistirá até que não toquem em um fio de cabelo e um veio de água sem consentimento, sob risco de todo rio salgar, da vida não mais germinar, pois meus cantos não se contentam com a sobrevida." - trecho da Carta das águas salgadas para mulheres de povos e comunidades tradicionais lida por Michele Vasconcelos, professora do Departamento de Psicologia da UFS, coordenadora do subprojeto de Fortalecimento Sociopolítico das Marisqueiras de Sergipe/PEAC.  

RAMIFICAÇÃO DO OBSERVATÓRIO NOS TERRITÓRIOS DE VIDA

Coletivo Erukerê em referência às Deusas Orixás durante a instalação do Observatório

Foto: Jhonatas Macario

No segundo dia (26), houve uma roda de compartilhamento de experiências acadêmicas e comunitárias sobre alianças que fortalecem a vida das mulheres das águas, do campo e das florestas. O momento contou com a participação de Angélica Gaete, Ana Tragolaf-Acalaf e Andrea Ximena do Observatório de Gênero da UFRO, no Chile; com Geonísia Dias do Movimento das Marisqueiras de Sergipe; e Indira Alves e Ariane Martins, representantes do Observatório dos Territórios Saudáveis e Sustentáveis de Bocaina. O objetivo da roda era de provocar reflexões sobre a importância da construção do observatório como um instrumento de luta pela transformação social, pautada nas relações horizontais de gênero, raça e classe. O dia foi encerrado com uma atividade cultural realizada pelas mulheres do coletivo Erukerê, em uma reverência às Deusas Orixás.  

No terceiro e último dia (27), aconteceu a Plenária Final para socialização dos trabalhos em grupo e definições dos campos de observação, além da aprovação da carta de compromissos que marca a criação do Observatório.  

IMPRESSÕES E OUTRAS IMPORTÂNCIAS

Segundo Érika Santana, representante da Secretaria de Estado da Inclusão, Assistência Social e do Trabalho (SEIT), a criação de um observatório que atue na linha de enfrentamento à violência contra as mulheres é uma pauta presente há muitos anos nos movimentos sociais feministas. “É fundamental para que as políticas públicas aconteçam dentro dos municípios”, afirma.

De acordo com Graziela Passos, integrante do Movimento das Marisqueiras de Sergipe, o Observatório é mais uma janela que se abre em combate aos diversos tipos de violências enfrentadas pelas mulheres. “É preciso fazer grupos e ensinar sobre o que é amor, o que é obsessão e o que é posse. Eles ajudam a orientar e fortalecer essas mulheres, porque às vezes elas não tem apoio em casa”, conta. Para ela, “ter a coragem de denunciar [a violência] não significa que o medo diminuiu”, mas é uma atitude “necessária” para evitar que a violência se repita com outras mulheres também.

Foto: Jhonatas Macario

Para Divaneide Souza, do Movimento de Mulheres Trabalhadoras  Rurais do Nordeste (MMTR) e Articulação São Francisco Vivo, a participação na construção do observatório é “gratificante”. “A gente já vem na luta contra as violências contra a mulher há tempos e a gente nota que no Estado de Sergipe, os mecanismos e outras ferramentas importantes que a gente tinha no combate à violência contra a mulher foram se perdendo…”, afirma.

Segundo Souza, o observatório é um importante espaço para que as vozes, vítimas de violências, possam ser ouvidas. “A gente pode dialogar mais de perto, quando a gente tem uma ferramenta como o observatório fica mais fácil… é a união de mulheres para defender mulheres. Isso é muito importante!”, ressalta.  

 

A realização do PEAC é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo IBAMA.