PEAC

Manifesto pelo fortalecimento dos territórios de vida é lançado em Sergipe

21 de junho de 2019

Documento reafirma compromisso dos povos e comunidades tradicionais com a reprodução da vida e faz um alerta sobre os impactos de megaempreendimentos

Somos protagonistas da nossa existência,
temos autonomia e exigimos a permanência em nossos territórios.
Escrevemos nossa luta no chão e nas marés da vida.
(Manifesto dos Povos e Comunidades Tradicionais)

Manifesto lançado no XI EPEAC fortalece a defesa dos territórios de vida

Manifesto lançado no XI EPEAC fortalece a defesa dos territórios de vida

A riqueza da vida a partir das suas dimensões cotidianas foi a grande conexão entre 155 mulheres e homens que protagonizaram o XI Encontro do Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (EPEAC), entre os dias 6 e 9 de junho, em Aracaju-SE. Durante quatro dias, lideranças de 97 comunidades tradicionais do litoral sergipano e norte do litoral baiano, pescadores e pescadores artesanais, marisqueiras, quilombolas, catadoras de mangaba, trabalhadores sem terra (MST), pequenos agricultores e pequenas agricultoras, entre outras representações das terras, das florestas e das águas, além de representantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS), compartilharam a força dos saberes e das experiências de vida que pulsam nos seus territórios.

Entre uma mesa de diálogos e uma diversidade de círculos de cultura, músicas e poemas escritos pelas mãos que garantem a pesca e a colheita conduziram o ritmo das resistências que não se silenciam. No poder da memória que expressa a sabedoria ancestral, a palavra dos povos ecoou pela manifestação sagrada de quem sabe re-existir diante da força do tempo e das opressões causadas pelo aprofundamento do atual modelo de desenvolvimento econômico sobre seus modos de vida.

As intensas trocas de conhecimentos sobre os diversos modos de vida dos povos e comunidades tradicionais impulsionadas durante o evento, resultaram no “Manifesto dos Povos e Comunidades Tradicionais”, que tem como objetivo dialogar com a sociedade civil sobre os impactos dos megaempreendimentos sobre as terras e as águas no Brasil, bem como fortalecer a defesa dos modos de vida que compõem o cotidiano dos povos e comunidades tradicionais e que garantem o peixe e o pão-nosso de cada dia, seja no campo ou na cidade.

Para baixar e ler o Manifesto na íntegra, clique aqui.

Território

“O conhecimento transforma o cidadão,
nos faz ver e rever o outro lado, o próximo, sentir o outro.”
(Joselito dos Santos, de Cachoeira, Jandaíra-BA)

Elementos representativos das culturas dos territórios foram expostos poeticamente

Elementos representativos das culturas dos territórios foram poeticamente abordados nos diálogos

As condições de vida e o cotidiano coletivo da produção do viver foram poeticamente abordados como fio condutor da troca de saberes e experiências no XI EPEAC. No centro da roda, elementos que, através de suas cores, cheiros e texturas, representam a cultura e a história dos povos presentes ao evento. Redes de pesca, bandeiras, produtos artesanais, alimentos, sementes, ferramentas de trabalho, ícones de fé e outros objetos produzidos nos territórios foram a inspiração para a condução dos diálogos, fortalecendo assim a integração dos diferentes saberes e a troca de experiências sobre os modos de vida.

Amplamente utilizada por diversos movimentos sociais, a instalação artístico-pedagógica permitiu aos participantes pisarem simbolicamente nos territórios vizinhos. Inspiradas na genialidade de Frei Betto, as reflexões coletivas giraram em torno do questionamento: “A cabeça pensa onde os pés pisam: o que identificamos de conflitos e ameaças nos nossos territórios? E de resistências?”. Dessa forma, foi possível dialogar sobre estratégias de luta pelo protagonismo e pela permanência das comunidades em seus territórios.

“Se você não valoriza a terra, você não vai trabalhar na terra. O habitar não é só a casa, não é só o teto, é assumir nossa ancestralidade e nossos costumes, ajudar ao próximo, à comunidade. É não fechar os olhos para a comunidade que passa pela mesma situação”, afirmou Claudeane Bispo, quilombola e moradora do povoado Santa Cruz, município de Brejo Grande-SE. “Nós lutamos contra os latifundiários. É difícil, mas a gente resiste. Eles têm a malícia, e nós temos a resistência”, ressaltou.

Ameaças e resistências

“A legislação não entende que ninguém pesca o dia todo
e nem todos os dias, nós somos um povo que trabalha
a partir do movimento das águas, da lua, da maré,
das espécies que impõem processos diferenciados sobre o tempo”
(Elionice Sacramento, de Conceição de Salinas-BA)

No centro da foto, Elionice, representante do Movimento de Mulheres Pescadoras (MPP)

Elionice, do Movimento de Mulheres Pescadoras (MPP), destaca resistências dos territórios

Especulação imobiliária, restrição ao acesso aos mangues, carcinicultura e a contaminação do rio São Francisco e do Rio Japaratuba foram algumas das ameaças expostas pelas representações das comunidades, a exemplo de Orlando da Silva Dorotea, morador do povoado Abadia, município de Jandaíra (BA).

“Na minha comunidade, foram arrancadas muitas árvores na praça para uma grande obra que nem chegou a se concretizar. Árvores históricas e muito importantes para a comunidade. Se eu tivesse participado desse encontro antes, essas árvores não teriam sido arrancadas. Com a força que ganhei nesse evento, entendi que esse habitar me fala de como mudam nossos locais de morada sem que a gente tenha força pra lutar pela nossa cultura”, emocionou-se Orlando.

Por outro lado, foram destacadas também as resistências que permitem aos povos e comunidades tradicionais fortalecerem-se entre si para enfrentar os conflitos e as ameaças que oprimem seus modos de vida, como as atividades de turismo de base comunitária e os produtos feitos pela fineza do trabalho e da arte.

“Sem território, as comunidades tradicionais não têm vida", afirmou Wagner Nascimento

“Sem território, as comunidades tradicionais não têm vida”, afirmou Wagner Nascimento

“Sem território, as comunidades tradicionais não têm vida. Nós só estamos aqui porque lutamos e precisamos nos juntar mais para lutar. Chegamos em Sergipe e foi muito importante ver os povos de várias comunidades, fortalecer o fazer político, pensar. Quem fala por nós somos nós. É importante sair dessa condição de objeto de trabalho, de pesquisa, e temos mudado isso fazendo nós mesmos as pesquisas sobre nós”, emocionou-se Wagner Nascimento, coordenador do Fórum de Comunidades Tradicionais da Região da Bocaina, que envolve os municípios de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba, no litoral do Rio de Janeiro.

Cultura e identidade

“Quando a gente está fazendo arte, não precisa de muito.
Só precisa da inspiração que a gente encontra nos nossos territórios.
Arte e poesia também são resistência”
(Gênisson Santos ‘Fio’, de Ponta dos Mangues, Pacatuba-SE)

Abertura da V Feira Cultural

V Feira Cultural destaca ritmos e cores dos povos e comunidades tradicionais

São Pedro abençoou e a intensidade de músicas, danças e sabores produzidos nos territórios coloriu o espaço do Oceanário para a realização da V Feira Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais. Embalado por muita animação e forró, o público presente pôde saborear uma linda diversidade de licores, cocadas, mariscos, artesanatos e biojóias, feitos pelas mãos das marisqueiras, catadoras de mangaba, pescadores, camponeses e camponesas que compõem a riqueza dos territórios costeiros.

“Eu não sou feliz, eu sou extremamente feliz”, afirmou Uilson da Silva, morador do bairro Santa Maria em Aracaju, entre um forrozinho e outro. Ele faz parte de um grupo de 31 anos de existência, uma associação de 11 famílias de catadores e catadoras de mangaba que sobrevivem da colheita deste produto. “Estamos todos juntos em defesa das mangabeiras, em defesa de uma área restante. É a última área de extrativismo”, ele conta. “A experiência da mangabeira é uma vida que defende outras vidas. Não só a mangaba, toda a biodiversidade é a nossa riqueza”, complementa.

Em sua quinta edição, a Feira Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais já tem lugar cativo no calendário cultural sergipano. Representa um grande encontro entre representantes de comunidades da costa sergipana e norte do litoral baiano para exposição e comercialização dos produtos fabricados pelas mentes e mãos de quem garante a reprodução da vida em seus territórios.

“Essa feira vai muito além da venda de produtos, é um encontro de experiências, de trocas de culturas”, afirma Ram Sashi, analista de projeto do PEAC e um dos organizadores do evento.

O PEAC

Com abrangência em 95 comunidades tradicionais de toda a costa sergipana – espacializadas em dez municípios – e de Conde e Jandaíra, na Bahia, a realização do PEAC é uma medida de mitigação exigida pelo licenciamento ambiental federal, conduzido pelo IBAMA. Atualmente, o PEAC é executado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) com convênio administrado pela Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe (Fapese/UFS).

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