PEAC

A luta por um território livre é um grito que ecoa alto e forte

30 de agosto de 2019

Lideranças de povoados e comunidades tradicionais de Sergipe e outros estados se reunem para troca de saberes e fortalecimento das lutas pelo controle social dos royalties.

Mary Almeida, presidente da Associação dos Tototós e Canoeiros da Barra dos Coqueiros.

Mesa visibilizou as existências e resistências que ocorrem nas comunidades tradicionais

A manhã desta sexta, 30, deu seguimento aos debates propostos pelo II Seminário para o Controle Social dos Royalties em Sergipe, com a mesa de debates “Trocando saberes – fortalecendo as lutas pelo controle social dos royalties e os territórios de vida das comunidades costeiras”. O evento teve início às 9h30, no auditório da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Sergipe (ADUFS-UFS) e contou com a participação de representantes dos Grupos de Trabalho (GTS) do Observatório Social dos Royalties (OSR), do povo Mapuche, da Argentina e lideranças de povos e comunidades tradicionais de Sergipe e de outros estados para discutir as contradições do processo de desenvolvimento nas regiões em que vivem e as formas de luta e resistência que podem ser fortalecidas com o controle social.

Todos os meses, empresas responsáveis pela exploração de petróleo repassam aos estados e municípios uma quantia (royalties) por permitirem a extração de um recurso não renovável, o petróleo. No entanto, essa quantia mensal não compensa o impacto dessas atividades nos territórios e nas comunidades, como afirma Maria das Dores, moradora do povoado Santa Isabel, localizado no município de Pirambu. “Tem muito dinheiro de royalties, enquanto tem gente morando em casa de taipa, gente que não tem remédio de diabetes, porque eles não trazem. O posto de saúde está fechado tem 5 anos. Tem muita mãe de família passando fome e eu não vejo motivo para tanta gente passar fome com tanto dinheiro de royalties”, afirmou.

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“Tem muita mãe de família passando fome e eu não vejo motivo para tanta gente passar fome com tanto dinheiro de royalties”, afirma Maria das Dores

O impacto dessas ações também é sentido por Mary Almeida, presidente da Associação dos Tototós e Canoeiros da Barra dos Coqueiros. “Há mais ou menos 30 anos, não é possível navegar pelos rios por causa da falta de políticas públicas.” Para ela, o desenvolvimento vem acompanhado da destruição dos territórios e causa prejuízos para a vida daqueles que vivem, necessariamente, daquilo que a natureza pode oferecer.

“Quando a ponte Aracaju-Barra dos Coqueiros saiu, eu vi meu pai chorar na mesa. Ele disse que não sabia se poderia mais sustentar a família, porque a ponte afetou financeiramente a vida desses canoeiros”, afirmou Mary. O impacto dessas construções afeta diretamente a sustentabilidade e valorização das tototós, do transporte, do turismo e tradição do local. “Um canoeiro trabalha hoje para levar trinta reais para casa… Estamos vendo nossos rios morrendo e já não chegamos a quase nenhum lugar por falta da navegabilidade. Cadê as políticas públicas?”, continuou a presidente da associação que integra a Barra dos Coqueiros, a Bacia Hidrográfica dos rios Sergipe e Japaratuba.

Participantes ouvem atentos os relatos das comunidades e povos tradicionais

Participantes ouvem atentos os relatos das comunidades e povos tradicionais

TERRITÓRIO LIVRE

Entre os participantes da mesa, a presença de  Alexandre Anderson, representante da Ahomar – Associação Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara – levantou discussões acerca do que acontece no mar e nas comunidades em decorrência do impacto da exploração do petróleo. Segundo o pescador, o petróleo traz com ele grandes empreiteiras, mas, também, doenças e ocupação desordenada. “Petróleo não é sinônimo de desenvolvimento”, afirmou.

“Petróleo não é sinônimo de desenvolvimento”, afirmou Alexandre Anderson

“Petróleo não é sinônimo de desenvolvimento”, afirmou Alexandre Anderson

Com toda a problemática, Uilson da Silva, morador do bairro Santa Maria em Aracaju, relembrou que “os povos e comunidades tradicionais precisam defender as suas riquezas” e que a luta contínua deve ser um aspecto presente entre os povos.

Segundo Gilberto Huilipan, representante do povo Mapuche, da Argentina, após 500 anos de invasão, este povo tomou a decisão de recuperar seus territórios e modos de vida. Para ele, a luta pelas reivindicações é necessária, pois “o nosso sangue está chegando ao rio, estamos morando nas ruas, para que outros se encham de ouro” e ressaltou: “Falam que há leis, e realmente há, mas não são aplicadas. Temos que exigir que se cumpram, exigir do Estado a aplicação dos royalties para que a nossa cultura, nossa saúde e educação pública não acabe”, destacou.

Representantes dos Povos Mapuche contribuíram com o debate

Representantes dos Povos Mapuche contribuíram com o debate

A luta por um território livre é um grito que ecoa alto e forte entre os participantes do evento. Para Celinda Campo, também representante dos povos Mapuche, a união entre as comunidades é essencial para fortalecimento dos debates e das lutas pelo controle social a fim de “exigir os direitos” e “evitar o retrocesso da sociedade”.

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